conto em conjunto com ana s. a outra parte, da visão dela, tá no blog dela.
Seus pés eram poesia fluida. Pelas luzes, pela fumaça e pelo álcool, não posso dizer muito bem se o fogo saía deles, ou se eram meus olhos, ocultos no sofá, que davam a eles esse poder de envenenar, de deixar tonto qualquer testemunha de tanto prazer. A música, bem, ela não era das melhores – o que posso dizer de uma música nacional quando meu coração é estrangeiro? Não é minha culpa se ele se deixa levar por qualquer brisa, qualquer afago doce que cisma em passar.
Enquanto você dançava com aquele cara, pura sombra anônima, eu sorria com eterno cuidado pra não deixar o cigarro cair. Mesmo que o sorriso não fosse dos melhores, fiquei triste por não ter recompensa por tanto trabalho que tive pra não deixar a angústia transparecer. Angústia de não poder estar ali, dois pra lá, dois pra cá, e por uma coisa tão simples fazer de mim um projeto de homem, um amor incompleto.
Sei que é bobagem minha. Você nunca poderia ter me visto ali, sentado. Talvez visse, não só ali, mas em toda vida, um pequeno ponto vermelho, minha tímida brasa que espera o momento certo pra poder queimar em agonia. Mas quem há de julgar se a brasa é verdade, sabendo que ela se esconde em cinzas, que ela suspira fumaça somente quando tudo em volta é incendiário?
E se me visse? Seria capaz de saber quem era aquela silhueta em apenas dois compassos? Seria dispersiva e intensa a ponto de conseguir deixar de lado todo o contato, toda sedução e envolvência que a dança requer? Saberia que por trás desse sorriso falso existem pensamentos, e que todos eles, junto ao ritmo do forró, são pensamentos de você?
A música acabou. Você agradeceu ao homem pela dança, sentou ao meu lado, e, depois de um suspiro e de dizer que estou cansada, dormiu no meu ombro, sem esperar reação.
Seus pés eram poesia fluida. Pelas luzes, pela fumaça e pelo álcool, não posso dizer muito bem se o fogo saía deles, ou se eram meus olhos, ocultos no sofá, que davam a eles esse poder de envenenar, de deixar tonto qualquer testemunha de tanto prazer. A música, bem, ela não era das melhores – o que posso dizer de uma música nacional quando meu coração é estrangeiro? Não é minha culpa se ele se deixa levar por qualquer brisa, qualquer afago doce que cisma em passar.
Enquanto você dançava com aquele cara, pura sombra anônima, eu sorria com eterno cuidado pra não deixar o cigarro cair. Mesmo que o sorriso não fosse dos melhores, fiquei triste por não ter recompensa por tanto trabalho que tive pra não deixar a angústia transparecer. Angústia de não poder estar ali, dois pra lá, dois pra cá, e por uma coisa tão simples fazer de mim um projeto de homem, um amor incompleto.
Sei que é bobagem minha. Você nunca poderia ter me visto ali, sentado. Talvez visse, não só ali, mas em toda vida, um pequeno ponto vermelho, minha tímida brasa que espera o momento certo pra poder queimar em agonia. Mas quem há de julgar se a brasa é verdade, sabendo que ela se esconde em cinzas, que ela suspira fumaça somente quando tudo em volta é incendiário?
E se me visse? Seria capaz de saber quem era aquela silhueta em apenas dois compassos? Seria dispersiva e intensa a ponto de conseguir deixar de lado todo o contato, toda sedução e envolvência que a dança requer? Saberia que por trás desse sorriso falso existem pensamentos, e que todos eles, junto ao ritmo do forró, são pensamentos de você?
A música acabou. Você agradeceu ao homem pela dança, sentou ao meu lado, e, depois de um suspiro e de dizer que estou cansada, dormiu no meu ombro, sem esperar reação.