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segunda-feira, 29 de junho de 2009

opções

fazemos vinte anos de casados. temos um casamento muito feliz: ela ainda tem aquela gentileza e leveza de quando era apenas uma moça estudante de direito. todos nossos amigos nos invejam pela ternura de nosso convívio e pelo amor que temos por nossas vidas. nunca tivemos grandes brigas. foram poucas e pequenas - as necessárias. ela, linda como sempre foi, ainda se mostra mais bela aos quarenta e dois.
a conheci da maneira mais romântica e real possível. freqüentávamos o mesmo encontro semanal de poesia concreta, de onde despontavam os grandes novos poetas da nossa época. ela gostava do gullar, eu idolatrava o leminski. assim que o encontro terminava, espíritos jovens e inquietos que éramos, recitávamos pra nós mesmos os versos que nos vertiam por toda a madrugada.
em pouco tempo, crescemos muito. e com esse crescimento vieram as noites de queijos e vinhos na minha casa, as manhãs de amor explícito e romântico antes do café. quando eu tinha vinte e um, e ela, vinte e dois, decidimos juntar nossas almas definitivamente, porque os corpos se entendem, mas as almas, não. passaram os anos, ganhamos dinheiro e criamos filhos. passamos nossa poesia para a nova geração.
temos dois filhos crescidos, um de dezessete, outro de quatorze. garotos eternamente carinhosos, atenciosos, inteligentes, saudáveis. religiosos. têm bom gosto tanto para a música quanto para a leitura, herança dos pais. estão perto quando queremos que estejam, mas são independentes o suficiente para nos deixar a sós quando a precisamos; são de uma sensibilidade sem limites.
partimos em lua de mel, a terceira, para um cenário que parecia comover-se por sí só. à tarde, saímos para passear pela praia, deserta ao pôr-do-sol. andamos de mãos dadas sem manchar de palavras o sentimento comum e secreto. pés nus na areia, as ondas beijavam mornas meus pés, não os dela, enquanto as gaivotas pintavam sombras no céu vermelho, laranja, amarelo, azul, negro.
foi então que um impulso de rebelião apagou a tarde com poucas palavras. eu nunca poderia me divorciar de você sem uma razão forte - mas, mesmo que eu talvez nunca precise ter, eu quero ter outras opções, amor. o problema é que, por enquanto, eu preciso de você. é, por enquanto, eu preciso de você.
seus olhos mal se moveram da silhueta feita entre a areia seca e a úmida, mas parecia que o mar todo cabia em cada um deles. nós dois parados, larguei sua mão e sentei na areia esperando uma resposta, como se alguém pudesse ter uma resposta pronta para essa situação. no fundo, porém, eu sempre achei que ela tivesse pensado sobre isso tanto quanto eu, e que estivesse tão cansada quanto seu choro mudo, que não saía, que não se expressava.
sequei apressado e discretamente a minha lágrima, antes que fosse notada. mas essa lágrima não era pela dito, muito menos pela situação - era por conter minha mania de fantasiar um mundo que nunca se torna realidade. a mania que nos manteve unidos por todo esse tempo e criou nosso casamento perfeito. a mesma que fantasiou esse monólogo na minha mente em apenas um segundo, enquanto continuamos andando de volta pro hotel pela praia.
afinal, ninguém se atreve a dizer o que realmente quer e pensa quando as apostas são tão altas e os riscos, tão incalculáveis. então, assim que a angústia se acalmou, virei e disse que a amava, com um sorriso saudoso e asséptico. ela disse que me avama também, retribuindo o sorriso com um beijo, de leve, na boca. eu fingi que acreditei nela. ela fingiu que acreditou em mim.