confessionário
o aniversário dela foi anteontem, ontem foi o meu. esse texto poderia ser um depoimento sobre ela, daqueles depoimentos-presentes que trocamos no orkut, mas não é o caso. não é um texto sobre a verdade, nem tampouco descreve querendo retorno. esse é um texto inocente, totalmente isento de intenções e de declarações bombásticas. e tudo que ele pode parecer, não é: só é o que está escrito, a situação como foi, como não é mais. afinal, com um início desses, devem achar que é algo sobre amor - você só fala disso, luciano - mas não é.
tendo todas as interpretações e conseqüências ruins que isso pode provocar prevenidas, me sinto à vontade para escrever. até porque eu tenho isso de acordar aleatóriamente durante a noite, um texto quase pronto na cabeça e a vontade surreal de escrever. vontade entorpecente, psicotrópica, que causa alucinações de tão idealizada e vivida na mente. sem começo, meio ou fim, daquelas que te dão margem para escrever sobre mil coisas, e ainda assim estar dentro do assunto - por mais que eu mude de ritmo e ambiente sem aviso.
eu saía de um universo feliz e frio, com toda a chance de viver intensamente uma coisa que eu pouco vivi. me permito essa digressão, por ser necessária; volto ao meio de 2008, aproximadamente um ano atrás, e digo que eu estava feliz. o inverno ia bem, junto com o namoro e com toda aquela situação clichê que é a de estar apaixonado com o amor realizado. mas como disse, eu saía desse universo feliz e frio, nova friburgo, e voltava pra niterói.
fui jogado pelo destino em outro lugar, completamente mudo e seco, um cenário equívoco, onde não conhecia ninguém e tinha medo de tudo. digo que fui jogado pelo destino por só poder ter sido trama dele - só existe uma pessoa para ser a última classificada para uma faculdade. e nunca tive um suspense tão torto na vida, ficar um ano a esperar por uma vaga, e finalmente conseguir esse lugar. lugar ingrato, que esperou algo bom acontecer pra poder tirar, pra poder me ver trocar a alma pelo conhecimento, pra poder me vestir de fausto.
e foi ali que a conheci, aquela do aniversário de anteontem. o contexto de faculdade já era verdade: as pessoas se conheciam, conversavam, viviam, e eu fui simplesmente pressionado contra esse contexto. isso fez com que inicialmente eu fosse isolado. lia meus livros nas aulas, brincava de observador, câmera ambulante sem direito à televisão.
nesse momento, e, aliás, esse é um dos momentos preferidos, as pessoas não são o que fazem, o que dizem, o que pensam. são somente o que você projeta em cada um. as pessoas são corpos e projeções. e não dá pra dizer o contrário, ela sempre foi uma pessoa social. não é necessário muito tempo pra notar que ela está ali, que ela é querida, que gostam muito dela. reitero o que disse no início, não existe maldade no que digo, é um puro relato dos fatos, ou da minha interpretação dos fatos naquela época.
e é com o sentimento contrário que digo que eu tinha medo dela. é ridículo pensar que se tem medo de uma pessoa tão bonita, feliz e agradável, mesmo sem a conhecer; mas acho que recai exatamente nesses fatores o meu medo inicial. ela parecia linda, leve e solta. aquele tipo de pessoa que você sempre olha de longe, achando que nunca vai conseguir trocar uma palavra sequer sem cair na timidez.
meu medo era ter essa admiração (acho que essa é a melhor palavra, por não remeter a nenhum sentimento de ordem amorosa) e ainda assim amar aquela que deixava em friburgo, a pequena e linda julia. e esse medo crescia enquanto as palavras eram mudas e poucas. eu ainda não dirigia a palavra a ninguém, meu escudo não deixava, e enquanto nada acontecia, as projeções aumentavam, junto com o medo e a vontade de sair logo dali, voltar correndo pra minha cidade natal.
mas ela veio falar comigo. hoje tomo isso como algo muito natural nela, essa espontaneidade, mas é chocante quebrar o silêncio do receio com esse golpe direto. foi a primeira pessoa que falou comigo, mas eu achava que seria a última a vir até mim e perguntar quem eu era, se eu era de jornalismo, pra eu dizer que era reclassificado, o último, e ela me dar os parabéns com um sorrisinho de leve e um tapinha nas costas, dizendo que eu era bem-vindo.
porém, em pouco tempo, minha visão mudaria pra pior. não que ela seja ruim (e se eu te disser que tem um texto sobre você no blog; e se você estiver lendo, preste atenção no que vou escrever agora). o fato é que as coisas concretas sempre são piores que as idéias. não digo em um tom pejorativo, mas os extremos feitos pela projeção sempre são apagados pela imposição do real. ao imaginar algo como muito bom, só o fato de ter que rasgar essa idéia maravilhosa e engolir o real já deixa um gosto ruim (por melhor que o real seja).
então, passei a conviver com ela. ver que ela não era inatingível. ver que ela é uma pessoa social (provavelmente a mais social do nosso período). e aquele choque ruim se moldou em algo ainda melhor que a poesia da imaginação. demonstrou ser uma pessoa de uma sensibilidade e amizade fora de série. e se digo, novamente sem maldade, que gosto dela e que já posso prezar por essa amizade (como tantas outras, tão intensas e agradáveis, nesse novo ambiente de faculdade), não é por pouco. mas não escrevi sobre ela à toa. escrevi por ter a conhecido dessa forma inusitada, por essa história estranha, escondida aqui dentro, pedindo ar e água fresca.
esse texto é pra lhe dar os parabéns e pra confessar algo que não é mais verdade.