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domingo, 13 de julho de 2008

bebop

quase metade do que eu falo ou escrevo vai nas entrelinhas; somente eu e umas poucas pessoas realmente sabem do que eu estou falando, ao que eu me refiro ou em que me baseei. afinal, nem todo mundo dá conta de perceber que estou aqui, duas e quarenta e nove de uma segunda, tomando um café instantâneo amargoso, pensando nesse dia que vai vir, no que eu vou dizer se me perguntarem sobre a julia, se me perguntarem sobre algo que escrevi ou no que farei se decidir matar mais uma vez a aula de natação; que na verdade não é uma aula, já que já sei nadar faz tempo. nem todo mundo sente o mundo como isso, como felicidades possíveis, como tédio repetido, como triste coletivo.

alguns dizem que o café causa agravamento da tristeza, que é uma causa de depressão. mas eu acho que ele deixa o povo mais desperto, pensando mais rápido e levando a concluir que o mundo, é verdade, não vale a pena, e que a única coisa realmente feliz é love you inside and out, dos beegees. nah, nem isso.

enquanto eu limpo a bagunça que tá aqui dentro, procuro algo pra ouvir. algo suave, mas que faça tremer o coração. algo como exit music, do radiohead, mas não acho nada na playlist. there's such a chill, such a chill. e, nossa, tá tarde pra ouvir alguma coisa nesse som, menino, desliga isso aí e vai dormir, mas tô sem sono, tô sem fome, tô com frio, quero luz pálida azul e o ouvido ouvindo you gotta go to the lonesome valley, nobody else can go for you.

essa é a última semana. provavelmente a última. não vou ter mais a dose diária de amor noturno. eu tenho esse problema, esse que você tem também acentuado, de sofrer por antecipação. aquela mania besta de não conseguir amar sem sofrer. algo meio blues, quando você sabe que vai começar o solo de gaita. aquele sentimento de culpa que vem logo antes de falar pro seu amigo que ele fez merda. cara, você não devia ter falado isso pra ela. e mesmo assim eu me sinto feliz, tenho amor realizado, e o blues se segue, como as linhas de um diário que nunca foi usado.

nem tudo no mundo é cinzas; também têm as chamas e o oxigênio. o problema é quando você pensa demais e percebe demais, e sente demais; e a boca traz o oxigênio, as chamas, as cinzas.

e, você sabe, na vida, não há muita diferença entre o original e o acústico, mas se você sabe o que é o acústico e o que é real, ah, aí está a poesia.