movido para aqui.
quarta-feira, 26 de agosto de 2009
tsé-tsé (ou teoria da seleção natural)
se eu for me deixando escrever
desse jeito sem pensar
descontrolado
vou continuar ouvindo o mesmo zumbido
dos mosquitos que desde a minha infância
já não morrem com sbp e que
não escolhem entre o pedreiro
que já tá acordando pra fazer chapisco
e eu
eles não sabem o que é prazer
ou fama ou tristeza
ou o que significam as palavras de saudade e os barulhos do relógio
se eu for continuar escrevendo assim
ou de outro jeito ou de
algum ainda mais sorrateiro, um terceiro
o tempo de sorrir sem preocupar não vai querer mudar de idéia
não vai dar nó no tempo pra ele voltar nem ligar a luz
do banheiro do andar de cima
e se for pra eu ser feliz vai dar na mesma
ser triste ou ser famoso não existe
só existe o calor
e o sangue da possível próxima versão de mim
chorando nas lojas mais próximas daqui a uns dez ou vinte anos
desse jeito sem pensar
descontrolado
vou continuar ouvindo o mesmo zumbido
dos mosquitos que desde a minha infância
já não morrem com sbp e que
não escolhem entre o pedreiro
que já tá acordando pra fazer chapisco
e eu
eles não sabem o que é prazer
ou fama ou tristeza
ou o que significam as palavras de saudade e os barulhos do relógio
se eu for continuar escrevendo assim
ou de outro jeito ou de
algum ainda mais sorrateiro, um terceiro
o tempo de sorrir sem preocupar não vai querer mudar de idéia
não vai dar nó no tempo pra ele voltar nem ligar a luz
do banheiro do andar de cima
e se for pra eu ser feliz vai dar na mesma
ser triste ou ser famoso não existe
só existe o calor
e o sangue da possível próxima versão de mim
chorando nas lojas mais próximas daqui a uns dez ou vinte anos
sexta-feira, 7 de agosto de 2009
feridas abertas
já faz tantos anos
que vejo o teto desse quarto
com olhos noturnos, vejo
o que ninguém mais viu
(meu inferno particular)
e mesmo que não possa distinguir
o que é sombra e o que é paixão,
a imagem está queimada nas retinas
um milhão de idéias agora
parecem não ter mais razão de ser
(sinto que apenas dois desejos
opostos e complementares
me mantêm acordado
queria que você tivesse visto
as minhas cicatrizes na escuridão desse quarto
sentindo no toque
sangrando nas unhas
queria apenas
poder dormir.)
que vejo o teto desse quarto
com olhos noturnos, vejo
o que ninguém mais viu
(meu inferno particular)
e mesmo que não possa distinguir
o que é sombra e o que é paixão,
a imagem está queimada nas retinas
um milhão de idéias agora
parecem não ter mais razão de ser
(sinto que apenas dois desejos
opostos e complementares
me mantêm acordado
queria que você tivesse visto
as minhas cicatrizes na escuridão desse quarto
sentindo no toque
sangrando nas unhas
queria apenas
poder dormir.)
segunda-feira, 3 de agosto de 2009
achados e perdidos
é violenta e triste a nova
vida que se apresenta nas velhas
linhas azuis em branco
que progressivamente vão sendo
tingidas de preto por alguém
que não sabe fazer nada além de ler e ver
e sentir em três dimensões mais
aquela em seu cérebro
mas o mundo não estaria menos triste
ou amanheceria um dia feliz
se todas essas linhas
paralelas em pensamento e em
números de série
deixassem de ter essas indecifráveis
manchas coerentes em nanquim
pois se fosse verdade
não seriam estas as linhas tingidas
mas aquelas do menor e mais lindo caderno
que perdi com meu nome e endereço
e nunca nunca devolveram
vida que se apresenta nas velhas
linhas azuis em branco
que progressivamente vão sendo
tingidas de preto por alguém
que não sabe fazer nada além de ler e ver
e sentir em três dimensões mais
aquela em seu cérebro
mas o mundo não estaria menos triste
ou amanheceria um dia feliz
se todas essas linhas
paralelas em pensamento e em
números de série
deixassem de ter essas indecifráveis
manchas coerentes em nanquim
pois se fosse verdade
não seriam estas as linhas tingidas
mas aquelas do menor e mais lindo caderno
que perdi com meu nome e endereço
e nunca nunca devolveram
domingo, 12 de julho de 2009
sobre liberdade poética
hoje eu ainda posso escrever
aqueles poucos poemas que fiz
de amor realizado
aqueles que todo poeta que se preze
(ao menos um pouco)
sabe que pode fazer.
acho que a nossa virtude não é
a de transformar o que nos é verdade
em mágica, em perfume textual
nem é esse nosso papel
(e antes que você diga
quem é você pra discordar com leminski?
digo que é também bem natural
esse nosso discordar vadio)
a virtude do poeta é
juntar dois ou três versos sobre
qualquer sentimento
pedra bruta da memória
criatividade e sensibilidade
(é que hoje sonhei
um sonho não permissivo
você estava linda naquele vestido xadrez
na porta de uma festa inexistente
e eu tava em casa ouvindo nossa música
lembrando que meu amor
por você acabou
mas que a memória dele é minha
e faço com ela o que eu quiser)
e o dia nasceu
com mais um poema imaturo no mundo.
aqueles poucos poemas que fiz
de amor realizado
aqueles que todo poeta que se preze
(ao menos um pouco)
sabe que pode fazer.
acho que a nossa virtude não é
a de transformar o que nos é verdade
em mágica, em perfume textual
nem é esse nosso papel
(e antes que você diga
quem é você pra discordar com leminski?
digo que é também bem natural
esse nosso discordar vadio)
a virtude do poeta é
juntar dois ou três versos sobre
qualquer sentimento
pedra bruta da memória
criatividade e sensibilidade
(é que hoje sonhei
um sonho não permissivo
você estava linda naquele vestido xadrez
na porta de uma festa inexistente
e eu tava em casa ouvindo nossa música
lembrando que meu amor
por você acabou
mas que a memória dele é minha
e faço com ela o que eu quiser)
e o dia nasceu
com mais um poema imaturo no mundo.
domingo, 5 de julho de 2009
conto em conjunto com ana s. a outra parte, da visão dela, tá no blog dela.
Seus pés eram poesia fluida. Pelas luzes, pela fumaça e pelo álcool, não posso dizer muito bem se o fogo saía deles, ou se eram meus olhos, ocultos no sofá, que davam a eles esse poder de envenenar, de deixar tonto qualquer testemunha de tanto prazer. A música, bem, ela não era das melhores – o que posso dizer de uma música nacional quando meu coração é estrangeiro? Não é minha culpa se ele se deixa levar por qualquer brisa, qualquer afago doce que cisma em passar.
Enquanto você dançava com aquele cara, pura sombra anônima, eu sorria com eterno cuidado pra não deixar o cigarro cair. Mesmo que o sorriso não fosse dos melhores, fiquei triste por não ter recompensa por tanto trabalho que tive pra não deixar a angústia transparecer. Angústia de não poder estar ali, dois pra lá, dois pra cá, e por uma coisa tão simples fazer de mim um projeto de homem, um amor incompleto.
Sei que é bobagem minha. Você nunca poderia ter me visto ali, sentado. Talvez visse, não só ali, mas em toda vida, um pequeno ponto vermelho, minha tímida brasa que espera o momento certo pra poder queimar em agonia. Mas quem há de julgar se a brasa é verdade, sabendo que ela se esconde em cinzas, que ela suspira fumaça somente quando tudo em volta é incendiário?
E se me visse? Seria capaz de saber quem era aquela silhueta em apenas dois compassos? Seria dispersiva e intensa a ponto de conseguir deixar de lado todo o contato, toda sedução e envolvência que a dança requer? Saberia que por trás desse sorriso falso existem pensamentos, e que todos eles, junto ao ritmo do forró, são pensamentos de você?
A música acabou. Você agradeceu ao homem pela dança, sentou ao meu lado, e, depois de um suspiro e de dizer que estou cansada, dormiu no meu ombro, sem esperar reação.
Seus pés eram poesia fluida. Pelas luzes, pela fumaça e pelo álcool, não posso dizer muito bem se o fogo saía deles, ou se eram meus olhos, ocultos no sofá, que davam a eles esse poder de envenenar, de deixar tonto qualquer testemunha de tanto prazer. A música, bem, ela não era das melhores – o que posso dizer de uma música nacional quando meu coração é estrangeiro? Não é minha culpa se ele se deixa levar por qualquer brisa, qualquer afago doce que cisma em passar.
Enquanto você dançava com aquele cara, pura sombra anônima, eu sorria com eterno cuidado pra não deixar o cigarro cair. Mesmo que o sorriso não fosse dos melhores, fiquei triste por não ter recompensa por tanto trabalho que tive pra não deixar a angústia transparecer. Angústia de não poder estar ali, dois pra lá, dois pra cá, e por uma coisa tão simples fazer de mim um projeto de homem, um amor incompleto.
Sei que é bobagem minha. Você nunca poderia ter me visto ali, sentado. Talvez visse, não só ali, mas em toda vida, um pequeno ponto vermelho, minha tímida brasa que espera o momento certo pra poder queimar em agonia. Mas quem há de julgar se a brasa é verdade, sabendo que ela se esconde em cinzas, que ela suspira fumaça somente quando tudo em volta é incendiário?
E se me visse? Seria capaz de saber quem era aquela silhueta em apenas dois compassos? Seria dispersiva e intensa a ponto de conseguir deixar de lado todo o contato, toda sedução e envolvência que a dança requer? Saberia que por trás desse sorriso falso existem pensamentos, e que todos eles, junto ao ritmo do forró, são pensamentos de você?
A música acabou. Você agradeceu ao homem pela dança, sentou ao meu lado, e, depois de um suspiro e de dizer que estou cansada, dormiu no meu ombro, sem esperar reação.